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Vigésimo Primeiro Dia

Apesar de tudo, morrendo de sono, estressados com o final da viagem, na expectativa de reencontrar os entes queridos que nos aguardam de volta (esperamos que ainda nos aguardem! ), todo mundo estava pronto por volta das 5 horas. Saímos, colocamos combustível e, com o Luciano na frente, fomos rapidamente nos aproximando de Tacuarembo. Mais combustível, mais estrada e o dia foi rendendo. Aduana uruguaia com passagem muito rápida e, do lado brasileiro, nem vimos!  Paradas ágeis no Brasil, com mais frentistas para atender, fomos progredindo bem.  Mas depois das 13:30 – 14:00 hs  me bateu um cansaço insuportável.  Como , apesar de cansados, todos queriam seguir e eu, avaliando minha situação particular com bom senso e percebendo que seria perigoso demais prosseguir, resolvi parar e descansar, chegando amanhã com mais calma e mais descansado. Aproveitei uma parada para esperar o carro de apoio e comuniquei ao Luciano e depois a todos a minha decisão. Eu estava realmente sem condições de prosseguir e, muito chateado, despedi-me desta turma espetacular  e parei em Carazinho, num hotel próximo à estrada. Telefonei para casa, tomei banho, cochilei por perto de 1 hora, coloquei a escrita em dia, jantei por volta das 19 horas  e , amanhã, mais descansado, na nova situação de vôo solo, sairei direto para Balneário Camboriú para almoçar com a família e matar as saudades depois de mais de 20 dias de estrada.

A viagem vai acabando para todos mas vai ficando uma sensação de dever cumprido. Todos bem, uns mais ansiosos que outros, todos sem dinheiro, todos cansados, todos felizes.

A viagem a Ushuaia nos mostrou que é muitíssimo mais que um desafio: não é só a distância – imensa -  que faz você se cansar ao extremo;  o vento teima em querer nos derrubar ininterruptamente, o frio nos maltrata contínuamente, a  chuva,a  neve,o  rípio ( este parecia o mais difícil e hoje não assusta mais nenhum de nós), os dias muitos longos e noites muito curtas que vão minando a resistência física ( você quer sair cedo mas acaba indo dormir muito tarde, enganado pela tarde que quase não acaba ).  Aliás, em Ushuaia, como pude observar, há sempre uma pequena claridade no horizonte, não chega a escurecer completamente. As motos se desgastam muito,  tanto que, apesar de todas terem partido de pneus novos, 4 trocaram o pneu traseiro e as outras chegarão com eles na lona. Nosso ritmo de viagem foi delirante ( 12.000 km em 21 dias não é fácil! ).  Nosso convívio foi ótimo, apesar do cansaço e da ansiedade, normais num período tão grande de afastamento de casa.  Não há o que fazer, cada um do seu  jeito vai levando e controlando seus sentimentos e os outros têm que procurar entender. Isto desgasta um pouco , fica um certo nervosismo no ar. Mas nosso grupo permaneceu coeso, alegre, unido, até que eu saí por cansaço e , com certeza, na próxima terça-feira estaremos no Gika’s , mais descansados, relembrando nossa epopéia.

Aproveito para agradecer a todos pela companhia que me proporcionaram, pelo carinho com que me trataram, pelos vários auxílios que me deram, pelos momentos de alegria que me fizeram chorar de tanto rir, pelos inúmeros gestos de delicadeza que sempre estiveram presentes.  Peço desculpas por qualquer palavra ou ato ou gesto que possa ter proferido ou praticado sem intenção e por qualquer coisa que tenha escrito que possa ter desagradado algum dos meus companheiros. Tenho certeza porém,  que estes pedidos de escusas são formais e que ninguém tem nada a perdoar a ninguém e, juntos, todos temos a agradecer a alguma força maior que nos conduziu em paz e segurança por estes caminhos tão difíceis.

Arriba! Abajo! Al centro! A dentro!

E uma salva de uma palma para comemorar o feito!

Antes de terminar tenho um caso para contar e espero que o personagem não identificado, do qual tenho uma fotografia da careca ao por-do-sol,  não se zangue. É o seguinte:

Numa padaria em Caleta Olívia fomos comprar pães e doces para o café da manhã do dia seguinte.  A ver alguns doces em um balaio o cidadão falou para a mocinha que atendia, em seu sofisticado espanhol:

-Quiero doce!

-Senhor! No tengo doce, solamente siete! Respondeu a moça.

- Mas eu quiero doce!

-Solo siete, senhor!

-Doce!

-No ay, senhor!

 Até que descobriu que “doce” em português é igual a “dulce” em espanhol;  e “doce” é um número que aqui chama-se doze!

Perdoem o meu espanhol escrito mas acho que dá para entender o desentendimento e o porquê de todos morrerem de rir, na hora e quando lembram do caso.

Valeu!

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